Estou num conflito cultural muito interessante que me fez pensar. Estou há 10 dias na Europa tendo aquela enorme influência de qualidade, prestatividade, honestidade e organização que fizeram deste continente o grande successo que ele é hoje.
Para ser mais específico, estou exatamente neste momento viajando de trem em direção ao sul cruzando as planícies frias e cobertas de neve do norte da escandinávia. O clima castiga o povo com duras, frias e intermináveis noites numa escuridão de dar calafrios à qualquer brasileiro. De dentro do moderno vagão pude, à confortáveis 20 graus celsius, ligar meu notebook numa tomada e colocá-lo delicadamente numa mesa própria para isso enquanto bebo uma pepsi comprada no vagão-restaurante. Posso assistir à neve caindo do lado de fora enquanto pessoas muito agasalhadas sobem e descem do trem sem apresentar nenhum cupom ou ticket uma vez que todos já entendem que o certo é pagar exatamente pelo trecho viajado. Entre os vagões, modernas portas automáticas e silenciosas parecem ter saído diretamente de um filme da série “Guerra nas Estrelas”. Enquanto um sistema digital de informação indica 140Km/h de velocidade, um funcionário informa que nunca houve sequer um caso de roubo nos trens em mais de 15 anos (mesmo que eu tenha deixado, de propósito, meu notebook, câmera-digital, mala, dinheiro e documentos sozinhos enquanto fui comprar a pepsi ou fui ao toalete).
Ao mesmo tempo estou aqui corrigindo os exames realizados pelos meus alunos da faculdade nesse semestre lá do longínquo e exótico Brasil. Alunos que não conseguiram atingir os requisitos mínimos da faculdade e precisaram passar por uma “repescagem” que reduz ainda mais os requisitos já tão baixos.
Sempre que estou dando aula ou corrigindo exames me coloco numa linha de pensamento onde vejo que aqueles jovens serão o futuro do país. Sem demagogias vazias. Eles serão efetivamente os próximos profissionais, aqueles que buscarão empregos, que serão nossos parceiros de trabalho, nossos vizinhos, pagadores de impostos, cidadãos e membros dos nossos grupos sociais. Serão eles que trarão novas idéias, novas culturas, novas soluções e também novos problemas. Vão estar nos apoiando enquanto caminhamos para aposentadoria e, quando chegarmos lá, serão aqueles que sustentarão o mundo dos nossos netos enquanto descansamos em algum lugar confortável os últimos dias da nossa vida.
É assim que sonho pelo menos. E assim que tento fazê-los sentir. Tento resgatar a antiga relação pupilo versus tutor que tanto foi minada com essa máquina de ensino criada ao longo dos anos. O pupilo é mais que um aluno. Ele não é, de forma alguma, um “não-iluminado” como a palavra “aluno” nos relembra. Ele é um pupilo - a menina-dos-olhos, aquele que filtra tudo para um conhecimento maior, melhor, mais elevado - para ultrapassar o mestre. O tutor também não é somente um professor. Ele é um instrutor, aquele que aponta a direção, que transmite mais do que simplesmente uma lista enorme de assuntos. O tutor é útil, é chave, é o trilho, uma das peças do enorme trilho que o trem dos pupilos deve percorrer.
Mas ler os exames desses alunos me entristece demais: me faz lembrar de como nossa cultura brasileira é medíocre; como ela aceita a mediocridade como padrão irrevogável. Dezenas de alunos buscando nada mais que passar numa mísera matéria com a nota mínima para tal feito. Nada de realizar o exame inteiro. Para que, se só metade do exame já deve garantir os 50% que cada um precisa para passar? Esta postura me entristece: me faz pensar que o esforço é inútil, que nossos jovens são exatamente como os nossos antepassados: são medíocres, egoístas e cegos para o bem maior - cidadãos de segunda linha se é que ao menos podem ser chamados de cidadãos.
Por que aceitamos tanto a mediocridade? Por que aceitamos viver com violência e com pobreza ao nosso redor? Por que aceitamos uma corrupção tão escandalosa? Por que aceitamos uma educação pública tão nojenta? Por que pagamos para sermos tão mau-educados nas entidades particulares? Por que aceitamos pagar fortunas para atendimento médico? Por que não resolvemos transformar o Brasil em um país descente, do qual possamos nos orgulhar verdadeiramente, onde não precisemos nos preocupar se seremos assaltados ou não, se chegaremos vivos em casa ou não? Por que culpamos um ou outro governo quando a culpa é totalmente nossa?
A resposta é que nós simplesmente aceitamos ser medíocres. Aceitamos de cabeça-baixa tudo que nos é imposto pelos mais fortes - e até pelos mais fracos ultimamente - vide o caso Evo Morales. Simplesmentes aceitamos ser medíocres. Aceitamos os indicadores sociais “na média” como dizem meus alunos - esses sim sem-iluminação.
Aceitamos que nos paguem de forma desequilibrada - os mais ricos sempre ficando mais ricos e os mais pobres sempre recebendo menos. Aceitamos que o Brasil cresça abaixo do crescimento mundial. Aceitamos que as pesquisas indiquem que somos um dos países mais corruptos do mundo. Aceitamos ter uma mídia manupulada e manupuladora. Aceitamos pagar a maior carga tributário do mundo e ter tão pouco em troca. Aceitamos um sistema tributário confuso e ineficiente. Aceitamos exageros profissionais em troca de míseros centavos no final do mês pagos por algum empresário sem coração ou por um governo corrupto.
Como alguns dos meus alunos retidos para exame, buscamos nada mais que a média em tudo e, exatamente por isso, a busca pela excelência nunca acontece e ficamos geração após geração retroalimentando um sistema falido.
Enquanto buscarmos nada mais que a mediocridade continuaremos sendo vistos como meros medíocres pelo mundo afora. Infelizmente com razão.